Episódio do inimigo

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Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela, vi-o subir penosamente pelo áspero caminho da colina. Ajudava-se com uma bengala, com uma torpe bengala que em velhas mãos não podia ser uma arma porém um báculo. Custou-me a perceber o que esperava: a débil batida na porta. Não sem nostalgia, olhei meus manuscritos, meu borrão semi concluído e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, livro um tanto anômalo aí, uma vez que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Receei que o homem desfalecesse, porém deu uns passos incertos, soltou a bengala, que não tornei a ver, e caiu em minha cama submisso. Minha ansiedade o tinha imaginado muitas vezes, mas só então notei que ele se parecia, de um modo quase fraternal, como o último retrato de Lincoln. Seriam as quatro da tarde.

Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse.

– A gente crê que os anos passam para si – lhe disse – mas passam também para os demais. Aqui por fim nos encontramos e o que ocorreu antes não tem sentido.

Enquanto eu falava, ele tinha desabotoado o sobretudo. A mão direita estava no bolso do paletó. Algo apontava para mim e eu percebi que era um revólver.

Disse-me então com voz firme:

– Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso.

Tentei umas palavras. Não sou um homem forte e só as palavras poderiam salvar-me. Atinei em dizer:

– É verdade que faz tempo maltratei um menino, mas você já não é aquele menino nem eu aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa que o perdão.

– Precisamente porque já não sou aquele menino – replicou-me – tenho de matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.

– Posso fazer uma coisa – respondi-lhe.

– O quê? – perguntou-me.

– Despertar.

E assim o fiz.

 

*****

Jorge Luis Borges Acevedo (Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — Genebra, 14 de Junho de 1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico e ensaísta argentino mundialmente conhecido por seus contos e histórias curtas.

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A Sentença

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Naquela noite, na hora do lobo, o imperador sonhou que havia saído de seu palácio e que, na escuridão, caminhava pelo jardim, debaixo das árvores em flor. Alguma coisa enroscou-se em seus pés e lhe implorou ajuda.

O imperador consentiu; o suplicante disse que era um dragão e que os astros lhe haviam revelado que no dia seguinte, antes do cair da noite, Wei Cheng, ministro do imperador. lhe cortaria a cabeça. No sonho, o imperador jurou protegê-lo.

Ao despertar, o imperador perguntou por Wei Cheng. Disseram-lhe que ele não estava no palácio; o imperador mandou buscá-lo e tratou de mantê-lo ocupado o dia inteiro, para que não matasse o dragão, e ao entardecer propôs que eles dois jogassem xadrez. A partida foi longa, o ministro estava cansado e acabou dormindo.

Um estrondo perturbou toda a terra.

Pouco depois chegaram dois oficiais que traziam uma imensa cabeça de dragão empapada de sangue. Jogaram-na aos pés do imperador e gritaram:

— Caiu do céu!

Wei Cheng, que acabara de despertar, olhou-a perplexo e comentou:

— Que estranho, eu sonhei que estava matando um dragão igualzinho a este.

 


 

Wu Cheng’en (1500-1582). Romancista chinês. Livro famoso: “Jornada ao oeste”. Como toda a cultura oriental, pouco conhecido aqui e de poucas informações disponíveis também.

Em memória de Paulina

em memória de paulina

 

Sempre amei Paulina. Em uma de minhas primeiras recordações, Paulina e eu estamos escondidos em um sombrio caramanchão de loureiros, em um jardim com dois leões de pedra. Paulina me disse: Gosto de azul, gosto de uvas, gosto de gelo, gosto de rosas, gosto de cavalos brancos. Eu entendi que a minha felicidade havia começado, porque nessas preferencias podia me identificar com Paulina. Éramos tão milagrosamente parecidos que, em um livro sobre a reunião final das almas na alma do mundo, minha amiga escreveu na margem: As nossas já se reuniram. “Nossas”, naquele tempo, significava a dela e a minha.

Para explicar tal semelhança argumentei que eu era um rascunho remoto e apressado de Paulina. Lembro que anotei no meu caderno:  Continue lendo “Em memória de Paulina”

Um médico de aldeia

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Sentia-me extremamente perplexo. Tinha de deslocar-me urgentemente a uma aldeia a dez milhas de distância, onde me esperava um doente em estado grave. Uma densa tempestade de neve cobria todo o espaço livre que me separava dele. Possuía um cabriolé, um pequeno cabriolé de rodas altas, inteiramente adequado para as nossas estradas de província. Agasalhado de peles, com a mala dos instrumentos na mão, estava no pátio, pronto para a viagem. O que não tinha era cavalo, cavalo nenhum. O meu tinha morrido durante a noite, consumido pelas fadigas deste gélido inverno. A minha criada corria agora à aldeia para tentar arranjar um cavalo emprestado, mas eu sabia que era em vão e ali permanecia abandonado, com a neve a formar sobre mim uma camada progressivamente mais espessa, cada vez mais incapaz de mover-me. Continue lendo “Um médico de aldeia”

A Casa de Asterion

a casa de asterion

E a rainha deu à luz um
filho que se chamou Asterion.

APOLODORO: Biblioteca, III, I.

 

Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei no devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de casa, mas também é verdade que as suas portas (cujo número é infinito*) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas femininas nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Por isso mesmo, encontrará uma casa como não há outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egito.) Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra afirmação ridícula é que eu, Asterion, seja um prisioneiro. Continue lendo “A Casa de Asterion”

A luz dos mortos

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            Madrugada ainda, com os pássaros adormecidos nos ramos, a escolta abandonou a vila e pôs-se a caminho. Eram quinze homens, apenas, sob o comando de um sargento, conhecedores, todos, dos menores recantos daquelas paragens. Antigos sertanejos, arrastados um a um para a cidade pelo desejo de vestir farda, voltavam agora reunidos aos campos natais, com a missão de bater, no tabuleiro das campinas ou na garganta das serras, um forte agrupamento de bandoleiros.

Continue lendo “A luz dos mortos”